Extraído de Nenhum Homem
Conhece a Minha História: A Vida de Joseph Smith (Nova
Iorque: Vintage Books, 1995) de Fawn M. Brodie (1915-1981),
pp. 16-33.
O percurso que levou
Joseph Smith para a carreira de "profeta, vidente e
revelador" está repleto de um emaranhado de lenda e
contradição. Relatos mórmones e não-mórmones parecem estar
em conflito em muitos pontos. Os documentos não-mórmones que
chegam a mencioná-lo -- um antigo registo de tribunal e
relatos de jornal -- indicam que Joseph reflectia a
independência religiosa do seu pai. As arengas dos
pregadores revivalistas parecem ter suscitado nele apenas
desprezo. Mas estes documentos contrastam muito com a
biografia oficial de Joseph, iniciada muitos anos mais tarde
quando ele estava perto do ponto culminante da sua carreira.
Esta conta a história de um rapaz visionário apanhado pela
histeria do revivalismo e conduzido a uma vida de misticismo
e exortação.
A evidência, porém,
não deixa dúvida de que, quaisquer que fossem os sentimentos
íntimos de Joseph, a sua reputação antes de organizar a
igreja não era a de um místico adolescente perdido na
contemplação de visões, mas antes a de um desocupado
simpático que era notório devido às suas histórias
exageradas e artes de necromancia e que gastava o seu tempo
livre liderando um bando de desocupados na escavação de
tesouros enterrados. Este comportamento é confirmado pela
descrição objectiva mais fria que subsiste do jovem Joseph,
que os historiadores até agora negligenciaram ou ignoraram.
Esta descrição também parece ser o documento público mais
antigo que o menciona. O documento, um registo do tribunal
datado de Março de 1826, quando Joseph tinha 21 anos, relata
o seu julgamento em Bainbridge, Nova Iorque, sob acusação de
ser "uma pessoa desordeira e um impostor". Com base no
testemunho apresentado, incluindo as próprias admissões de
Joseph de que se entregava a artes mágicas e organizava
buscas por ouro enterrado, o tribunal considerou-o culpado
de perturbar a paz.
Quatro anos depois
deste julgamento apareceu o Livro de Mórmon de Joseph, após
o que os editores locais em Palmyra, que nunca antes o
tinham considerado merecedor de comentário, começaram a
explorar as excentricidades da sua juventude. O editor do
Reflector de Palmyra,
Abner Cole, sob o
pseudónimo Obadiah Dogberry, escreveu durante 1830 e 1831
uma série de artigos descrevendo em exuberante detalhe os
anos da adolescência de Joseph.
Mais tarde, em
1833, quando a igreja de Joseph estava a aumentar
rapidamente em notoriedade e poder, um ex-mórmon descontente
chamado Hurlbut foi a Palmyra e Manchester solicitar
declarações juramentadas de mais de 100 pessoas que tinham
conhecido Joseph antes de ele ter começado a carreira
religiosa. Estes testemunhos juramentados, que foram
publicados em 1834 por Eber D. Howe num vitriólico livro
anti-mórmon intitulado Mormonism Unvailed, podem ter
sido coloridos pela tendência do homem que os reuniu, mas
confirmaram e suplementaram o registo do tribunal e os
editoriais de Dogberry.1
Como a história que relatam sobre os anos de adolescência de
Joseph Smith é adicionalmente substanciada por certas
admissões na sua própria autobiografia e na biografia
cândida ditada pela sua mãe, é possível reconstruir a
juventude de Joseph com um razoável grau de exactidão.
Significativamente, o
primeiro esboço de Joseph Smith sobre os seus anos iniciais
tomou a forma de uma penitência pelas suas indiscrições
juvenis. Pouco tempo depois de aparecer Mormonism
Unvailed, ele escreveu uma resposta para o seu jornal da
igreja:
Aos 10 anos
de idade a família do meu pai mudou-se mais uma vez,
para Palmyra, Nova Iorque, onde, e na vizinhança da
qual, vivi ou fiz a minha residência, até ter 21 anos;
na parte final, na cidade de Manchester. Durante este
tempo, como é comum à maioria ou a todos os jovens, caí
em muitos vícios e tolices; mas, como os meus acusadores
são, e têm sido, rápidos em acusar-me de ser culpado de
violações grosseiras e ultrajantes da paz e da boa ordem
da comunidade, aproveito a ocasião para observar que,
embora, como disse acima, "como é comum à maioria ou a
todos os jovens, caí em muitos vícios e tolices", não
fui, nem pode isso ser sustentado, em verdade, culpado
de fazer o mal ou ferir qualquer homem ou sociedade de
homens; e essas imperfeições a que aludo, e pelas quais
tive muitas vezes ocasião para lamentar, foram uma mente
frívola e muitas vezes orgulhosa, exibindo uma conversa
tola e leviana.2
Embora
51 vizinhos de Joseph tenham assinado uma declaração
juramentada acusando-o de ser "destituído de carácter
moral e viciado em hábitos perversos", não há evidência
de que o vício fosse parte da sua natureza, e a sua
penitência pode ser aceite na íntegra. Na realidade, ele era
um jovem gregário, bem disposto, imaginativo, nascido para a
liderança, mas penalizado pela educação limitada e pela
pobreza esmagadora.
Uma classe de
proprietários estava a engordar à custa do seu trabalho,
empurrando para oeste famílias irremediavelmente enlaçadas
como a sua própria. No jornal de Palmyra ele podia ler sobre
as suas vendas de hipotecas, 6 a 10 cada semana na primeira
página. Ele vivia suficientemente a leste para ver opulência
e ostentação mas não suficientemente a oeste para escapar ao
fardo esmagador das dívidas. A sua família, tendo-se
afundado cada vez mais desde aqueles anos iniciais em que o
dote da sua mãe fora a inveja da vizinhança, tinha perdido a
segurança e a respeitabilidade.
Mas a necessidade de
deferência era forte dentro dele. Talentoso muito para além
dos seus irmãos ou amigos, ele estava impaciente com as
esperanças modestas e os gostos ordinários deles. Expedito
no falar, ambicioso, e dotado de uma imaginação sem limites,
ele sonhava com a fuga para um futuro ilustre e próspero.
Pois Joseph não estava destinado a ser um agricultor
trabalhador, amarrado à terra por hábito ou por amor pelo
milagre recorrente da colheita. Ele detestava o arado como
só um filho de agricultor pode detestar, e olhava com
desespero para a hipoteca terrível que ensombrava o futuro
da sua família.
Existe, claro,
uma mina de ouro ou um tesouro enterrado em cada herdade
hipotecada. Quer o agricultor alguma vez escave em busca
dele ou não, o tesouro está ali, assombrando-o quando ele
sonha acordado nos momentos em que o fardo das dívidas é
mais insuportável. Nova Inglaterra estava cheia de caçadores
de tesouros -- agricultores pobres e desesperados que, tendo
comprado inconscientemente acres de pedras, esperavam que
essas mesmas pedras produzissem uma recompensa dourada pela
sua labuta esgotante. "Poderíamos citar, se assim o
desejássemos", disse um semanário de Vermont, "pelo menos
500 homens respeitáveis que na simplicidade e sinceridade
dos seus corações acreditam que tesouros imensos jazem
escondidos nas nossas Montanhas Verdes, muitos dos quais
estiveram durante vários anos empenhados de forma
industriosa e perseverante em escavá-los."3
Quando estes homens
migraram para oeste, trouxeram consigo todo o folclore do
cavador de tesouros, os feitiços e encantamentos,
o
ramo de aveleira e a vara mineral. Mas enquanto as Montanhas
Verdes nada produziram excepto um esconderijo ocasional com
dinheiro falsificado, o oeste de Nova Iorque e Ohio eram
ricos em relíquias índias. Centenas de pequenos túmulos
pontilhavam o horizonte, repletos de esqueletos e artefactos
de pedra, cobre, e por vezes prata batida. Havia 8 desses
túmulos a menos de 20 quilómetros da quinta dos Smiths.4
Só uma fraca curiosidade impediria qualquer dos rapazes da
família de meter a pá pelo menos uma vez nas suas
superfícies corroídas, e até o pai sucumbiu ao entusiasmo
local e tentou a sua sorte com um ramo de aveleira. O jovem
Joseph não se conseguia manter afastado dos túmulos.
A excitação
sobre as possibilidades de tesouros índios, e talvez ouro
espanhol enterrado, atingiram o auge com a vinda do que o
editor do Reflector de Palmyra chamou um "cartomante
vagabundo" de nome Walters, que ganhou a confiança de vários
agricultores a ponto de eles lhe pagarem 3 dólares por dia
para procurar tesouros enterrados nas suas propriedades.
Além de cristais, sapos embalsamados e varas minerais, a
parafernália normal do adivinho, Walters afirmava ter achado
um antigo registo índio que descrevia os locais dos tesouros
escondidos. Ele lia este registo em voz alta para os seus
seguidores no que parecia ser uma língua exótica e estranha
mas que na realidade era, segundo declarou o editor do
jornal, uma velha versão latina das Orations de César
[Cícero?]. Os relatos da imprensa que descrevem a actividade
de Walters, publicados em 1830-1831, declararam
significativamente que quando ele deixou a vizinhança o seu
manto caiu sobre o jovem Joseph Smith.5
Os vizinhos de Joseph
mais tarde contaram muitas histórias sobre pedras de
adivinhação, fantasmas, encantamentos mágicos e escavações
nocturnas. Joseph Capron jurou que o jovem Joseph lhe tinha
dito que uma arca de relógios de ouro estava enterrada na
sua propriedade, e tinha dado ordens aos seus seguidores
"para cravarem um lote de terreno com grandes estacas,
várias varas ao redor, em forma circular", directamente
sobre o local. Depois um dos do grupo marchou ao redor do
círculo com uma espada desembainhada "para
impedir
qualquer assalto que sua majestade satânica pudesse estar
disposta a fazer", e os outros cavaram furiosamente, mas em
vão, em busca do tesouro.
Outro vizinho,
William Stafford, jurou que Joseph lhe disse que havia um
tesouro enterrado na sua propriedade, mas que só podia ser
posto em segurança se uma ovelha negra fosse levada para o
local, e "conduzida à volta de um círculo" sangrando, com a
garganta cortada. Este ritual era necessário para aplacar o
espírito maligno que guardava o tesouro. "Para gratificar a
minha curiosidade", admitiu Stafford, "deixei-os levar uma
grande ovelha gorda. Eles depois informaram-me que a ovelha
foi morta segundo o mandamento; mas como houve algum erro no
processo, não teve o efeito desejado. Acredito que esta foi
a única vez que eles fizeram da escavação de tesouros um
negócio lucrativo."6
A escavação de
tesouros feita por Joseph começou a sério com a sua
descoberta de uma "pedra de vidência" quando ele estava a
cavar um poço para Mason Chase. Martin Harris declarou que a
pedra estava a 7 metros de profundidade e Joseph Capron
testificou que Joseph conseguia ver visões maravilhosas
nela, "fantasmas, espíritos infernais, montanhas de ouro e
prata". A esposa de Joseph certa vez descreveu esta pedra
como "não exactamente negra mas antes de cor escura", embora
ela não tenha admitido nenhum dos usos iniciais que foram
dados à pedra.7
Anos mais tarde Joseph
admitiu francamente no seu jornal da igreja e também no seu
diário que tinha sido um escavador de tesouros, embora,
escreveu, isso não fosse particularmente lucrativo já que
ganhava
"apenas 14 dólares por mês com isso".8
Mas que ele se entregava a todo o teatro enganoso que lhe
era atribuído pelos seus vizinhos, isso ele negou
vigorosamente.
A observação de
cristais é uma profissão antiga e tem sido uma profissão
honrada. Os egípcios olhavam fixamente para um reservatório
com tinta, os gregos olhavam para um espelho, os astecas
olhavam para um cristal de quartzo, e os europeus para uma
lâmina de espada ou copo de vinho -- qualquer superfície
translúcida que fizesse os olhos desfocarem-se com a
observação prolongada. Quando Joseph Smith começou a usar a
sua pedra de vidência ou de "ver", ele empregou o folclore
familiar à América rural. Os detalhes dos seus rituais e
encantamentos não são importantes pois eram comuns, e Joseph
desistiu da escavação de tesouros quando tinha 21 anos em
troca de uma profissão muito mais excitante.
Anos depois, quando
Joseph Smith se começou a tornar o profeta reverenciado por
milhares de mórmones, começou a escrever uma autobiografia
oficial, na qual o seu relato dos anos da adolescência
difere de forma surpreendente do breve esboço que ele tinha
escrito em 1834 em resposta aos seus críticos. Aqui não
havia qualquer desculpa mas antes o início de um épico.
Ele escreveu que
quando tinha 14 anos de idade ficou perturbado por
reavivamentos religiosos na vizinhança e foi para os bosques
para procurar a orientação do Senhor.
Era a primeira vez
na minha vida que eu tinha feito tal tentativa, pois
entre todas as minhas ansiedades eu nunca tinha até
então feito a tentativa de orar em voz alta....
Ajoelhei-me e comecei a oferecer a Deus os desejos do
meu coração. Mal tinha começado a fazê-lo, quando
imediatamente fui tomado por algum poder que me dominou
completamente, e teve sobre mim uma influência tão
espantosa a ponto de prender a minha língua de modo que
não pude falar. Fiquei rodeado por uma escuridão
cerrada, e durante algum tempo parecia-me como se eu
estivesse destinado à destruição repentina. Mas,
exercendo todos os meus poderes para invocar Deus para
me libertar do poder deste inimigo que me tinha
dominado, e no exacto momento em que eu estava pronto a
afundar-me no desespero e abandonar-me à destruição --
não a uma ruína imaginária, mas ao poder de algum ser
real do mundo invisível, que tinha um poder tão
maravilhoso como eu nunca
antes sentira em
nenhum ser -- exactamente neste momento de grande
alarme, vi uma coluna de luz mesmo por cima da minha
cabeça, sobre a luminosidade do sol, que desceu
gradualmente até que a senti sobre mim.
De súbito parecia
que eu me encontrava liberto do inimigo que me tinha
aprisionado. Quando a luz incidiu sobre mim vi duas
personagens, cujo brilho e glória desafiavam toda a
descrição, paradas sobre mim no ar. Uma delas falou
comigo, chamando-me pelo nome, e disse -- apontado para
a outra -- "Este é o meu amado Filho, escuta-O."
O meu
objectivo ao ir consultar o Senhor era saber qual de
entre todas as seitas estava certa, de modo que eu
pudesse saber a qual me juntar. Portanto, logo que me
consegui controlar, de modo a poder falar, perguntei às
personagens que estavam paradas acima de mim na luz,
qual de entre todas as seitas estava certa -- e a qual
me devia juntar. Foi-me respondido que não me devia
juntar a nenhuma delas, pois estavam todas erradas, e a
personagem que se dirigiu a mim disse que os seus credos
eram uma abominação à vista Dele: que esses professores
eram todos corruptos; que "eles aproximam-se de mim com
os lábios, mas os seus corações estão longe de mim; eles
ensinam por doutrinas os mandamentos de homens: tendo
uma forma de religiosidade, mas negam esse poder". Ele
proibiu-me mais uma vez de me juntar a qualquer delas: e
muitas outras coisas me disse ele, que não posso
escrever nesta altura. Quando recuperei os sentidos
novamente, vi que estava deitado de costas, olhando para
o céu.9
Visões menores que
esta eram comuns no folclore da área. Elias Smith, o famoso
pregador dissidente de Vermont, aos 16 anos tinha tido uma
experiência espantosamente parecida nos bosques perto de
Woodstock, quando viu "o Cordeiro sobre o Monte Sião", e uma
glória brilhante na floresta. John Samuel Thompson, que
ensinou na Academia de Palmyra em 1825, tinha visto Cristo
descer do firmamento "num resplendor de brilho excedendo 10
vezes o brilho do Sol meridiano", e tinha-O ouvido dizer:
"Designo-te para ir e dizer à humanidade que cheguei; e
ordeno a todos os homens que gritem vitória!" mas Thompson
nunca tinha descrito isto como outra coisa senão um sonho.
Asa Wild de Amsterdão, Nova Iorque, tinha falado com "a
terrível e gloriosa majestade do Grande Jeová", e tinha
aprendido "que toda a denominação de professos cristãos se
tornara extremamente corrupta", que dois terços dos
habitantes do mundo estavam prestes a ser destruídos e os
restantes introduzidos no milénio. "Muito mais o Senhor
revelou", tinha dito Wild, "mas proíbe que eu
o
relate deste modo. Publicarei em breve um panfleto barato, a
minha experiência religiosa e jornada na vida divina."10
Mas a sua própria
visão, conforme descrita por Joseph Smith 18 anos depois do
evento, eclipsou claramente todas estas experiências.
Naturalmente, seria de esperar que a imprensa local lhe
tivesse dado publicidade considerável na época em que
alegadamente ocorreu. E a autobiografia de Joseph
levar-nos-ia de facto a acreditar que a sua visão de Deus
Pai e Seu Filho tinha criado uma sensação na vizinhança:
Depressa descobri,
porém, que o facto de eu ter contado a história tinha
excitado muito preconceito contra mim entre professores
de religião, e era a causa de muita perseguição, que
continuou a aumentar; e embora eu fosse um rapaz
obscuro, com apenas entre 14 e 15 anos de idade, e as
minhas circunstâncias na vida me tornarem um rapaz
irrelevante no mundo, ainda assim homens em altas
posições tomaram nota o suficiente para excitar a mente
do público contra mim, e criar uma perseguição amarga; e
isto era comum a todas as seitas -- todas unidas para me
perseguir.
Estranhamente,
porém, os jornais de Palmyra, que anos depois lhe deram
muita publicidade desagradável, não noticiaram a visão de
Joseph na altura em que supostamente ocorreu. De facto,
Dogberry insistiu no Reflector de Palmyra em 1 de
Fevereiro de 1831: "No entanto, parece haver bastante
certeza de que o próprio profeta nunca manifestou qualquer
pretensão séria em relação à religião até à sua recente
pretensa revelação [a descoberta do Livro de Mórmon]." Ele
notou em 14 de Fevereiro que os seguidores de Joseph em Ohio
estavam a afirmar que ele tinha "visto Deus frequentemente e
pessoalmente", e que "foram exibidas designações e papéis
que se dizia serem assinados pelo próprio Cristo".
Mas ele insistiu em 28 de Fevereiro: "É bem sabido que Joe
Smith nunca pretendeu ter qualquer comunhão com anjos até um
longo período depois do pretenso achado do seu
livro".11
O primeiro esboço biográfico de Joseph publicado, de 1834,
mencionado acima, não continha qualquer vestígio de um
acontecimento que, se tivesse acontecido, teria sido a
experiência mais esmagadora para a alma em toda a sua
juventude. Mas há duas versões manuscritas da visão entre
1831 e o relato publicado nas Remarkable Visions de
Orson Pratt em 1840 que indicam que passou por uma
assinalável evolução nos detalhes. Na primeira, que Joseph
ditou em 1831 ou 1832, ele declarou que "no 16.º ano da
minha idade... o Senhor abriu os céus sobre mim e vi o
Senhor". Em 1835 isto tinha mudado para uma visão de duas
"personagens" num "pilar de fogo" sobre a sua cabeça, e
"muitos anjos". Na versão publicada as personagens tinham-se
tornado Deus Pai e Seu filho Jesus Cristo, e os anjos
tinham-se desvanecido. A idade de Joseph tinha mudado para
14.12
Embora a data
final de Joseph para o começo da sua missão tenha sido
fixada em 1820, há evidência de que a sua mãe e irmãos,
Hyrum e Samuel, aparentemente não deixaram de ir à sua
igreja presbiteriana até Setembro de 1828.13
Lucy Smith, ao escrever ao seu irmão em 1831 os detalhes
completos do Livro de Mórmon e a fundação da nova igreja,
nada disse sobre a "primeira visão". A mais antiga história
Mórmon publicada, iniciada com a colaboração de Joseph em
1834 por Oliver Cowdery, ignorou-a completamente, declarando
que a excitação religiosa na área de Palmyra ocorreu quando
ele tinha 17 anos (não 14). Cowdery descreveu a vida de
visões de Joseph como tendo começado em Setembro de 1823,
com a visão do anjo chamado Moroni, que se diz ter dirigido
Joseph na descoberta das placas de ouro escondidas.
Significativamente, em anos posteriores alguns dos
familiares próximos de Joseph confundiram a "primeira visão"
com a visão do anjo Moroni.14
Quando
Joseph começou a sua autobiografia, em 1838, ele estava a
escrever não sobre a sua própria vida mas sobre alguém que
já se tinha tornado o profeta mais célebre do século 19. E
ele estava a escrever para o seu próprio povo. As memórias
são sempre distorcidas pelos desejos, pensamentos e, acima
de tudo, as obrigações do momento.
Se aconteceu alguma
coisa naquela manhã de 1820, passou completamente
despercebido na cidade natal de Joseph, e aparentemente nem
sequer deixou marca nas mentes dos membros da sua própria
família. A espantosa visão que ele descreveu em anos
posteriores era provavelmente a elaboração de algum sonho
meio lembrado estimulado pela excitação do revivalismo
inicial e reforçada pelo rico folclore de visões que
circulava na sua vizinhança. Ou pode ter sido pura invenção,
criada algum tempo depois de 1830 quando surgiu a
necessidade de uma tradição grandiosa para anular as
histórias sobre cartomancia e escavação de tesouros. As
imagens de sonho vinham facilmente a este jovem, cuja
imaginação era tão desentravada como todo o oeste.
Uns poucos cidadãos
perspicazes na vizinhança de Joseph estavam mais divertidos
com os seguidores dele do que alarmados com as implicações
morais das suas escavações em busca de tesouros. Um nativo,
ao escrever as suas impressões sobre o rapaz alguns anos
depois, reconheceu alguns talentos positivos: "Joseph tinha
um pouco de ambição, e algumas aspirações muito louváveis; o
intelecto da mãe brilhava debilmente nele,
especialmente quando ele costumava ajudar-nos a resolver
algumas portentosas questões de moral ou ética política no
nosso clube de debates juvenil, que mudámos para o velho
prédio escolar vermelho na rua Durfee, para nos vermos
livres dos críticos que costumavam aparecer de surpresa na
aldeia. E subsequentemente, depois de apanhar uma faísca de
metodismo na reunião do campo, lá em baixo nos bosques, na
estrada para Vienna, ele era um exortador muito razoável nas
reuniões nocturnas."15
Este é um de
dois relatos não-mórmones que indicam que Joseph Smith,
apesar de todo o seu entusiasmo pela necromancia, não era
imune à excitação religiosa que varria periodicamente
Palmyra. A mãe dele escreveu que desde o primeiro dia ele
recusou terminantemente comparecer às reuniões no campo,
dizendo: "Posso pegar na minha Bíblia e ir para os bosques e
aprender mais em duas horas do que vocês aprendem na reunião
em dois anos, se forem sempre."16
Mas é evidente que ele estava sagazmente alerta para as
diferenças que dividiam as seitas e estava genuinamente
interessado nas controvérsias. Embora desprezando o
sectarismo, ele gostava de pregar porque isso lhe dava uma
audiência. E isto era tão essencial para Joseph como o
alimento.
Daniel Hendrix,
que ajudou a montar os tipos para o Livro de Mórmon,
escreveu certa vez que Joseph tinha "um modo jovial, fácil,
despreocupado que lhe granjeou muitos amigos calorosos. Ele
era um bom conversador, e teria sido um bom orador
propagandista, se tivesse tido o treino. Ele era conhecido
como um romancista de primeira ordem. Nunca pensei que um
homem tão ignorante como Joe pudesse ter uma imaginação tão
fértil. Ele nunca contava uma ocorrência comum da sua vida
diária sem embelezar a história com a sua imaginação; no
entanto, lembro-me que um dia ele ficou ofendido quando o
velho Parson Reed lhe disse que ia para o inferno por causa
do seu hábito de mentir."17
O próprio Joseph falou
muitas vezes do seu "temperamento nativo alegre", e era
evidente que desde uma idade precoce ele era um jovem
amigável e divertido que se deleitava em representar perante
os seus amigos. Aos 17 anos ele era magro e poderoso, 1
metro e 82 centímetros e moderadamente atraente. O seu
cabelo, mudando de
prateado para castanho
claro, caía para trás de forma luxuriante a partir da testa.
Mesmo nesta idade havia algo que compelia na sua presença e
homens mais velhos ouviam as suas histórias meio duvidando,
meio respeitosos. Nunca lhe faltavam seguidores.
A imaginação dele
transbordava como uma inundação de primavera. Quando ele
olhava fixamente para o seu cristal e via ouro em todo o
monte com forma estranha, estava a escapar do trabalho árduo
na quinta para uma opulência gloriosa. Se ele tivesse podido
continuar os seus estudos, sujeitando a sua fantasia
adaptável e o seu tremendo talento dramático à disciplina e
à moldagem, a sua vida poderia nunca ter tomado o rumo
exótico que tomou. A mente dele era ágil e impaciente, e o
estudo disciplinado podia ter feito os seus talentos
criativos voltarem-se para uma direcção convencionalmente
mais proveitosa.
Stephen A. Douglas,
também ele um grande líder natural, estava nestes mesmos
anos frequentando a Academia de Canandaigua, uns 14
quilómetros a sul, e foi ali que tomou as medidas aos seus
talentos vigorosos e começou a pô-los em uso. Os dois
provavelmente não se conheceram na juventude, mas quando os
seus caminhos se cruzaram anos mais tarde em Illinois os
dois homens tinham-se tornado, cada um à sua própria
maneira, as figuras mais célebres na fronteira do
Mississipi.
Saber se o espírito em
ebulição de Joseph poderia alguma vez ter sido canalizado
por qualquer disciplina é uma questão em aberto. Ele só teve
estudos escolares formais limitados depois de sair de Nova
Inglaterra. E como nunca teve uma verdadeira perspectiva
sobre os seus próprios dons, provavelmente estava inclinado
a encará-los como mais anormais -- ou supernaturais -- do
que realmente eram. O que era na realidade uma capacidade
extraordinária para a fantasia, que com treino apropriado
poderia até tê-lo levado à escrita de novelas, era encarado
por ele mesmo e pelos seus seguidores como uma segunda visão
genuína e pelos habitantes mais religiosos das cidades como
mentira ultrajante.
Quando Joseph tinha 18
anos o seu irmão mais velho Alvin morreu numa agonia súbita
e terrível causada pelo que a sua mãe descreveu como uma
dose excessiva de calomelanos prescrita por um médico para
curar uma perturbação de estômago. Na sua narrativa Lucy
Smith mencionou a morte rapidamente e quase filosoficamente,
pois tinham passado 20 anos para mitigar a sua mágoa, mas
ela omitiu completamente a sua curiosa sequela.
Alvin não tinha sido
um frequentador da igreja, e o ministro que pregou o seu
sermão fúnebre "insinuou muito fortemente que ele tinha ido
para
o inferno."18
A fúria da família contra o vigário mal tinha arrefecido
quando ouviram um rumor de que o corpo de Alvin tinha sido
exumado e dissecado. Receando que o rumor fosse verdade, o
Smith pai destapou a sepultura em 25 de Setembro de 1824 e
inspeccionou o cadáver. Em 29 de Setembro, e durante uma
semana a seguir a essa data, ele publicou o seguinte anúncio
pago no Wayne Sentinel:
AO PÚBLICO:
Embora tenham sido
laboriosamente postos em circulação relatos de que o meu
filho Alvin foi removido do local do seu enterro e
dissecado; relatórios esses que toda a pessoa possuindo
sensibilidade humana deve saber que foram peculiarmente
calculados para atormentar a mente de um pai e ferir
profundamente os sentimentos de relações, eu, com alguns
dos meus vizinhos esta manhã dirigi-me à sepultura, e
removendo a terra, encontrei o corpo, que não tinha sido
perturbado. Este método é tomado com o propósito de
satisfazer as mentes daqueles que o puseram em
circulação, que é solicitado seriamente que cessem de o
fazer; e que alguns acreditam que [os rumores] foram
estimulados mais pelo desejo de ferir a reputação de
certas pessoas do que por uma filantropia pela paz e bem
estar de mim próprio e de amigos.
(Assinado) Joseph
Smith
Palmyra, 25 de Setembro de 1824
É difícil
explicar esta cruel piada como outra coisa além da tentativa
de alguém ridicularizar as actividades de escavação da
família Smith, que nunca tinham sido seriamente
interrompidas. De facto, na altura em que tinha 19 anos o
jovem Joseph estava a começar a adquirir uma reputação de
ser um necromante de talento excepcional que contava até o
seu pai e irmão Hyrum entre os seus seguidores. A sua mãe
escreveu que Josiah Stowel (ou Stoal) fez o longo caminho
desde a Pennsylvania para ver o seu filho "depois de ter
ouvido que ele possuía certas chaves através das quais podia
discernir coisas invisíveis ao olho natural."19
Stowel, um agricultor
idoso de South Bainbridge (agora Afton), Nova Iorque, tinha
vindo para norte visitar familiares e tinha encontrado
Joseph em Palmyra. Simpson Stowel suplicou-lhe que exibisse
os seus talentos mágicos perante o pai, e Joseph, sendo
amigo de Simpson, acedeu, descrevendo em detalhe a "casa
e alpendres" de Stowel em South Bainbridge.
Stowel ficou tão impressionado que suplicou ao jovem que
fosse para sul consigo e procurasse uma mina de prata
perdida que se dizia ter sido explorada pelos espanhóis no
Vale de Susquehanna. Disse que lhe pagaria 14 dólares por
mês e alojamento gratuito.20
A colheita estava
terminada e a perspectiva de ver novas paragens
provavelmente atraiu Joseph tanto como o salário em
dinheiro. Sempre leal à sua família, ele insistiu que o seu
pai fosse incluído no arranjo, e partiram com Stowel para
sul. Pararam no sopé dos montes em Allegheny, ficando
durante algum tempo em Harmony, Pennsylvania, nas margens do
romântico Susquehanna. Nesse local alojaram-se com um homem
enorme e rude de Vermont chamado Isaac Hale.
O seu anfitrião, um
caçador famoso, gastou a maior parte do tempo nas florestas,
deixando a sua esposa e filhas cuidar dos jardins e vacas.
Joseph sentiu-se imediatamente atraído por Emma, de 21 anos,
uma rapariga de tez escura e face séria com grandes olhos
brilhantes cor de avelã. Ela era sossegada, quase taciturna,
com um ar inabordável ao qual Joseph, que aos 20 anos já era
considerado "um grande favorito das senhoras", respondeu com
mais do que atenção casual.
A princípio
Isaac Hale ajudou a subsidiar as expedições de Stowel às
montanhas, mas com os primeiros falhanços ficou rapidamente
desiludido e pouco depois tornou-se desdenhoso. Nove anos
mais tarde ele escreveu sobre Joseph, que então se tornara
seu genro: "A aparência dele nesta altura era a de um jovem
descuidado -- não muito bem educado, e muito impertinente e
insolente para o pai.... O jovem Smith a princípio deu
grande encorajamento aos 'escavadores de tesouros', mas
quando chegaram a cavar perto do local onde ele tinha dito
que um imenso tesouro seria encontrado -- ele disse que o
encantamento era tão poderoso que não conseguia ver. Nessa
altura eles ficaram desencorajados, e pouco depois
dispersaram-se. Isto ocorreu por volta de 17 de Novembro de
1825."21
Com o passar do tempo
o pai de Joseph voltou a Palmyra, mas o jovem permaneceu na
quinta de Josiah Stowel, que parece nunca ter perdido a fé
nos talentos sobrenaturais do seu protegido. Joseph
trabalhava na quinta, frequentava a escola no inverno, e
passava o seu tempo livre procurando tesouros e indo a
cavalo a Pennsylvania para ver Emma Hale.
Em Março de 1826
as artes mágicas de Joseph pela primeira vez trouxeram-lhe
problemas sérios. Um dos vizinhos de Stowel, Peter Bridgman,
prestou juramento num mandato para a detenção do jovem,
acusando-o de ser uma pessoa desordeira e impostor. No
tribunal Joseph negou que passasse todo o tempo à procura de
minas e insistiu que na maior parte do tempo trabalhava na
quinta de Stowel e ia à escola. Admitiu, no entanto, que
"tinha uma certa pedra, para a qual tinha olhado
ocasionalmente para determinar onde estavam tesouros
escondidos nas entranhas da terra; que afirmava dizer deste
modo a que distância abaixo do chão estavam as minas de
ouro, e que fizera buscas para o Sr. Stowel várias vezes, e
informara-o onde poderia encontrar esses tesouros, e o Sr.
Stowel tinha estado envolvido em cavar à procura deles; que
em Palmyra ele fingira dizer, olhando para a sua pedra, onde
estavam enterrados tesouros em Pennsylvania, e enquanto em
Palmyra tinha frequentemente determinado desse modo onde
estavam bens perdidos, de vários tipos; que tinha
ocasionalmente o hábito de olhar através para a sua pedra
para encontrar bens perdidos durante três anos, mas
ultimamente tinha praticamente desistido pois isso
prejudicava a sua saúde, especialmente os seus olhos --
fazia-lhe doer os olhos; que não solicitava negócios deste
tipo; e sempre preferira declinar ter algo que ver com este
negócio."22
Stowel defendeu Joseph
com grande vigor, insistindo que "sabia positivamente" que
Joseph podia ver tesouros valiosos através da pedra. Certa
vez o jovem dissera-lhe para cavar nas raízes de um velho
tronco, prometendo que encontraria um esconderijo de tesouro
e uma pluma. À profundidade de metro e meio desenterrou a
pluma, descobrindo que o tesouro se tinha "deslocado para
baixo".
O seu testemunho,
embora bem intencionado, fez ao prisioneiro mais mal que
bem. Os familiares de Stowel atacaram amargamente Joseph, e
o tribunal considerou-o culpado, embora o registo não diga
qual foi a sentença determinada. A história de Oliver
Cowdery, o único relato mórmon que alguma vez mencionou este
julgamento, negou que Joseph tivesse sido culpado. "...
alguma pessoa muito importuna", escreveu Cowdery,
"queixou-se dele dizendo que era uma pessoa desordeira, e
trouxe-o perante as autoridades do
concelho; mas não
havendo causa para acção ele foi honradamente absolvido."23
Parece que este
julgamento, o primeiro numa longa série de crises na sua
vida, chocou Joseph, incutindo-lhe um sentimento de que o
seu passatempo era fútil, pois nesta altura ele desistiu
completamente das suas escavações em busca de tesouros,
embora tenha guardado a sua pedra de vidência e alguns dos
artifícios psicológicos do adivinho rural.
Pode ser que esta
renúncia tenha ocorrido em parte devido a desilusão com a
sua própria magia. A maioria dos adivinhos são pessoas
ignorantes e supersticiosas que acreditam profundamente nas
suas varas minerais e pés-de-coelho. Os mágicos
profissionais, por outro lado, não são ingénuos. O grande
antropólogo Sir James Frazer indicou sabiamente que em
tribos primitivas é provável que o noviço inteligente que
estuda para ser curandeiro detecte as falácias que
impressionam espíritos menos brilhantes. É muito mais
provável que o feiticeiro que acredita nas suas próprias
pretensões extravagantes tenha a sua carreira abreviada do
que o impostor deliberado, e os mais hábeis são aqueles que
planeiam e treinam as suas imposturas. Onde o feiticeiro
honesto é refreado quando os seus encantamentos falham
visivelmente, o enganador deliberado tem sempre uma
desculpa. Certamente o mentor de Joseph, o prestidigitador
Walters, pertencia a esta última classe.
É evidente que Joseph
não tinha qualquer desejo de fazer da imitação de Walters a
profissão da sua vida. Talvez ele tenha desistido dos
truques e artifícios precisamente quando a superficialidade
destes se tornou mais evidente para ele; talvez a sua
renúncia fosse inteiramente devida a Emma Hale. Mas ele não
podia deitar fora a sua fantasia desenfreada e o seu amor
pela teatralidade, que o tinha atraído originalmente para a
necromancia.
Depois do julgamento
ele permaneceu durante alguns meses com Stowel, pois agora
estava muito apaixonado e relutante em regressar a Palmyra
sem levar Emma consigo como sua esposa. Mas Isaac Hale,
tendo Joseph na conta de um impostor barato, trovejou uma
recusa quando lhe foi pedida a mão dela e expulsou-o da
casa. Joseph agora fazia visitas clandestinas sempre que
Hale saía para caçar e suplicou à rapariga que fugisse com
ele.
Céptica, sem saber o
que esperar dele e preocupada com o futuro deles, ela
hesitou. Mas só havia cerca de 200 pessoas em
Harmony,
e ela desdenhava a escassez de homens elegíveis na aldeia.
Agora aproximando-se dos 23 anos, ela pode ter-se sentido
ameaçada com a perspectiva de ficar solteirona. Além disso,
Joseph tinha todo o ardor de um jovem de 21 anos, e nada da
inarticulação usual. Ela estava descontroladamente
apaixonada por ele.
Ele era grande,
poderoso e segundo os padrões normais muito atraente,
excepto o nariz, que era aquilino e proeminente. Os seus
grandes olhos azuis eram orlados de pestanas fantasticamente
longas que faziam o seu olhar parecer velado e ligeiramente
misterioso. Emma provavelmente reparou logo naquilo que
muitos dos seus seguidores mais tarde acreditavam ter uma
causa sobrenatural: quando ele estava a falar com sentimento
intenso, o sangue esvaía-se da sua face, deixando uma
palidez assustadora, quase luminosa. Embora ela possa ter
desaprovado as escavações em busca de tesouros, deve ter
tido fé na sua compreensão de mistérios insondáveis para as
pessoas comuns; ela não precisava que ninguém lhe dissesse
que ele não era um homem comum.
Stowel, que tinha
afeição pelo casal e estava ansioso por fazer avançar o
casamento, fez preparativos para Emma visitar Joseph na sua
casa em South Bainbridge. Em 18 de Janeiro de 1827 eles
casaram-se em segredo na casa de Squire Tarbell. Depois da
cerimónia partiram para Manchester para viver com os pais de
Joseph.
Oito meses
depois voltaram a Harmony para enfrentar a fúria de Isaac
Hale e para levar alguns móveis e gado que Emma possuía em
seu próprio nome. Como Joseph não tinha carroça, contratou
Peter Ingersoll para os levar, e é graças a ele que temos
uma descrição do encontro.24
Hale estava num mar de
lágrimas quando se encontrou com o casal. "Roubaste a minha
filha e casaste com ela", chorou. "Eu teria preferido
segui-la para a sepultura. Passas o tempo a cavar em busca
de tesouros -- finges ver numa pedra, e assim tentas enganar
as pessoas."
"Joseph chorou", disse
Ingersoll, "e reconheceu que agora não conseguia ver numa
pedra, nem nunca tinha conseguido; e que as suas pretensões
anteriores a esse respeito eram todas falsas. Então prometeu
abandonar os seus velhos hábitos de cavar em busca de
tesouros e olhar para pedras". Um pouco conciliado, Hale
disse a Joseph que se ele se mudasse para Pennsylvania e
trabalhasse pelo sustento, ajudá-lo-ia a entrar nos
negócios, e Joseph concordou com isto.
Mas
havia uma grande impaciência neste jovem que o fazia odiar o
trabalho da terra. Na verdade, ele tinha abandonado
definitivamente as escavações em busca de tesouros. Mas se
ficara desiludido com a profissão, tinha retido uma fé
soberba em si mesmo. Nos 5 anos seguintes Joseph subiu do
mundo da magia para o mundo da religião. Foi transformado de
necromante menor num profeta, rodeado já não por uma
clientela mas por seguidores entusiásticos com propósitos e
ideais comuns.
Notas
1 Como os livros e jornais
em que estes documentos apareceram originalmente são tão
raros a ponto de serem inacessíveis ao leitor comum, o
registo do tribunal, os excertos relevantes dos editoriais
de Dogberry e as declarações juramentadas mais importantes
são reproduzidas no Apêndice A.
2 Latter-Day Saints
Messenger and Advocate, Vol. I (Kirtland, Ohio, 6 de
Novembro de 1834), p. 40.
3 Reimpresso no Wayne
Sentinel (Palmyra, Nova Iorque), 16 de Fevereiro de
1825.
4 Para descrições e
localizações dos túmulos índios no oeste de Nova Iorque veja
E. G. Squier: Antiquities of the State of New York
(Buffalo, 1851), pp. 31, 66, 97, 99; O. Turner: Pioneer
History of the Settlement of Phelps and Gorham's Purchase
(1851), p. 216; e History of Ontario County (1876),
p. 101. O Palmyra Herald em 14 de Agosto de 1822 e o
Palmyra Register em 26 de Maio de 1819 relataram
descobertas de novos túmulos.
5 Veja o Apêndice A.
6 Veja o Apêndice A para
extractos mais completos destas declarações juramentadas.
7 A descrição de Emma Smith
foi escrita numa Carta dirigida à Sra. Pilgrim de Nauvoo,
Illinois, 27 de Março de 1871. Está presentemente na
biblioteca da Igreja Reorganizada em Independence, Missouri.
A declaração de Martin Harris foi publicada em Tiffany's
Monthly, 1859, pp. 163-170. Ele disse mais: "Havia uma
companhia ali naquela vizinhança, que estava a escavar em
busca de tesouros que supostamente tinham sido escondidos
pelos antigos. Desta companhia eram o velho Sr. Stowel --
penso que o nome dele era Josiah -- também o velho Sr.
Beman, também Samuel Lawrence, George Proper, Joseph Smith,
jr., e o seu pai, e o seu irmão Hiram Smith. Eles escavaram
em busca de tesouros em Palmyra, Manchester, também em
Pennsylvania e noutros lugares."
Joseph exibiu a sua
pedra de vidência numa data tão tardia como 27 de Dezembro
de 1841. (Veja o diário de Brigham Young no Millennial
Star, Vol. XXVI, p. 119.) Depois da sua morte foi levada
para o Utah. Segundo Hosea Stout, Brigham Young exibiu aos
regentes da Universidade de Deseret em 26 de Fevereiro de
1856 "a pedra de vidência com a qual O Profeta Joseph
descobriu as placas do Livro de Mórmon." Hosea Stout disse
que a pedra era quase preta, com riscas de cor clara. (Veja
a transcrição dactilografada do jornal dele na Utah State
Historical Society Library, Vol. VI, pp. 117-118.)
8 Elder's Journal,
Far West, Missouri, Vol. I (1838), p. 43; e Joseph Smith:
History of the Church, Vol. III, p. 29. (Esta história,
compilada principalmente dos diários manuscritos de Smith no
arquivo em Salt Lake City, será de aqui em diante mencionada
simplesmente como History of the Church.)
9 History of the Church,
Vol. I, pp. 5-7.
10 Veja o Wayne Sentinel,
22 de Outubro de 1823, para o relato de Wild. A visão de
Elias Smith é descrita em The Life, Conversion,
Preaching... of Elias Smith, escrito por ele mesmo
(Portsmouth, New Hampshire, 1816), p. 58. Ele veio
originalmente de Lyme, Connecticut, a cidade natal de
Solomon Mack, e migrou para Vermont no mesmo período que
Mack. O sonho de Thompson é descrito no seu Christian
Guide (Utica, Nova Iorque, 1826), p. 71.
11 Os ficheiros do
Reflector de Palmyra estão na Sociedade Histórica de
Nova Iorque; outros documentos de Palmyra estão na
Biblioteca Estatal de Nova Iorque em Albany. Veja o Apêndice
A.
12 Veja Times and
Seasons (Nauvoo, Illinois) 15 de Março de 1842. Para os
três relatos diferentes da visão ditada por Joseph Smith em
1831-1832, 1835 e 1839, veja o artigo de Dean D. Jesse
"Early Accounts of Joseph Smith's First Vision" (Relatos
Iniciais da Primeira Visão de Joseph Smith), Brigham
Young University Studies, Vol. IX, 1969, pp. 275-294.
Para detalhes veja o suplemento.
13 Registos da Igreja
Presbiteriana de Palmyra, conforme filmados em 1969 pelo
Reverendo Wesley P. Walters, descrevem os procedimentos em
3, 10, 24 e 29 de Março de 1830, quando Lucy Smith e os seus
filhos Hyrum e Samuel foram suspensos da igreja por
"negligenciarem a adoração pública e o sacramento da ceia do
Senhor durante os últimos dezoito meses".
14 Lucy Smith para Solomon
Mack, 6 de Janeiro de 1831, em Ben E. Rich: Scrapbook of
Mormon Literature (Chicago, Illinois, 190?), Vol. I, p.
543. Quando Lucy escreveu a sua biografia de Joseph em 1845,
com a colaboração de Martha Coray, citou directamente a
história publicada de Joseph sobre a primeira visão em vez
de descrever qualquer parte dessa visão nas suas próprias
palavras. Para a história de Cowdery veja Latter-Day
Saint Messenger and Advocate (Kirtland, Ohio,
1834-1835), especialmente a Carta IV, Fevereiro de 1835, p.
78. William, irmão de Joseph, disse num sermão em Deloit,
Iowa, em 8 de Junho de 1884: "Lembrar-se-ão que
imediatamente antes de o anjo ter aparecido a Joseph, houve
um reavivamento pouco usual na vizinhança.... Joseph e eu
próprio não aderimos; eu não tinha semeado toda a minha
aveia.... foi por sugestão do Rev. M----, que o meu irmão se
dirigiu a Deus. Quando ele estava envolvido em oração, viu
um pilar de fogo descer. Viu-o alcançar o topo das árvores.
Ele foi sobrepujado, ficou inconsciente, não soube quanto
tempo ficou nesta condição, mas quando voltou a si, a grande
luz estava por cima dele, e foi-lhe dito pela personagem que
vira descer com a luz, para não se juntar a nenhuma das
igrejas. Que ele seria instrumental nas mãos de Deus em
estabelecer a verdadeira igreja de Cristo. Que havia um
registo escondido no monte Cumorah que continha a plenitude
do Evangelho. Devem recordar-se que Joseph não tinha mais de
dezoito anos de idade nesta altura, demasiado jovem para ser
um impostor." (Saints Herald, Vol. XXXI, pp.
643-644).
O primo de Joseph,
George A. Smith, fez o mesmo tipo de erro em dois sermões em
Salt Lake City. Veja Journal of Discourses, Vol. XII,
p. 334, e Vol. XIII, p. 78. Edward Stevenson, nas suas
Reminiscenses of Joseph the Prophet (Salt Lake City,
1893), p. 4, declarou que em Pontiac, Michigan, em 1834, ele
ouvira o profeta testificar "com grande poder a respeito da
visão do Pai e do Filho". Mas a autobiografia manuscrita
sobre a qual estas reminiscências se baseiam, escrita em
1891, ao descrever o mesmo incidente falou apenas da "visão
de um Anjo".
15 O. Turner: History of
the Pioneer Settlement of Phelps and Gorham's Purchase,
p. 214.
16 Biographical Sketches,
p. 101.
17 Carta de Hendrix datada
de 2 de Fevereiro de 1897, publicada no St. Louis Globe
Democrat, citada em William A. Linn: The Story of the
Mormons (Nova Iorque, 1902), p. 13.
18 Declaração de William
Smith, irmão mais novo de Joseph, numa entrevista com E. C.
Briggs e J. W. Peterson, publicada no Deseret News (Salt
Lake City, Utah), 20 de Janeiro de 1894.
19 Biographical Sketches,
pp. 91-92.
20 Para a declaração de
Stowel veja o seu testemunho no julgamento no tribunal de
Bainbridge em 1826, reproduzido no Apêndice A. Veja também
History of the Church, Vol. III, p. 29.
21 Para a declaração
juramentada de Hale veja o Apêndice A.
22 Para o texto completo do
registo do tribunal deste julgamento veja o Apêndice A.
23 Latter-Day Saints
Messenger and Advocate (Kirtland, Ohio), Outubro de
1835. Cowdery declara que este julgamento teve lugar antes
de 1827. Não deve, portanto, ser confundido com dois
julgamentos posteriores na mesma área, nos quais Joseph foi
mesmo absolvido.
24 Para a declaração de
Ingersoll, veja o Apêndice A.